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"Vão-se foder"

por antipulhítico, em 26.09.12

"Vão-se foder"
Descobri este texto de uma portuguesa de 32 anos, uma cidadã que diz o que sente e
pensa a partir da sexta-feira passada. É um texto impressionante, que vivamente
recomendo. Leiam, por favor, até ao fim.
"Vão-se foder.
Na adolescência usamos vernáculo porque é “fixe”. Depois deixamo-nos disso. Aos
32 sinto-me novamente no direito de usar vernáculo, quando realmente me apetece
e neste momento apetece-me dizer: Vão-se foder!
Trabalho há 11 anos. Sempre por conta de outrém. Comecei numa micro empresa
portuguesa e mudei-me para um gigante multinacional.
Acreditei, desde sempre, que fruto do meu trabalho, esforço, dedicação e também,
quando necessário, resistência à frustração alcançaria os meus objectivos. E, pasmese,
foi verdade. Aos 32 anos trabalho na minha área de formação, feliz com o que
faço e com um ordenado superior à média do que será o das pessoas da minha
idade.
Por isso explico já, o que vou escrever tem pouco (mas tem alguma coisa) a ver
comigo. Vivo bem, não sou rica. Os meus subsídios de férias e Natal servem
exactamente para isso: para ir de férias e para comprar prendas de Natal. Janto
fora, passo fins-de-semana com amigos, dou-me a pequenos luxos aqui e ali. Mas
faço as minhas contas, controlo o meu orçamento, não faço tudo o que quero e
sempre fui educada a poupar.
Vivo, com a satisfação de poder aproveitar o lado bom da vida fruto do meu
trabalho e de um ordenado que batalhei para ter.
Sou uma pessoa de muitas convicções, às vezes até caio nalgumas antagónicas que
nem eu sei resolver muito bem. Convivo com simpatia por IDEIAS que vão da
esquerda à direita. Posso “bater palmas” ao do CDS, como posso estar no dia
seguinte a fazer uma vénia a comunistas num tema diferente, mas como sou pouco
dado a extremismos sempre fui votando ao centro. Mas de IDEIAS senhores,
estamos todos fartos. O que nós queríamos mesmo era ACÇÕES, e sobre as acções
que tenho visto só tenho uma coisa a dizer: vão-se foder. Todos. De uma ponta à
outra.
Desde que este pequeno, mas maravilhoso país se descobriu de corda na garganta
com dívidas para a vida nunca me insurgi. Ouvi, informei-me aqui e ali. Percebi.
Nunca fui a uma manifestação. Levaram-me metade do subsídio de Natal e eu não
me queixei. Perante amigos e família mais indignados fiz o papel de corno
conformado: “tem que ser”, “todos temos que ajudar”, “vamos levar este país para a
frente”. Cheguei a considerar que certas greves eram uma verdadeira afronta a um
país que precisava era de suor e esforço. Sim, eu era assim antes de 6ª feira. Agora,
hoje, só tenho uma coisa para vos dizer: Vão-se foder.
Matam-nos a esperança.
Onde é que estão os cortes na despesa? Porque é que o 1º Ministro nunca perdeu 30
minutos da sua vida, antes de um jogo de futebol, para nos vir explicar como é que 

anda a cortar nas gorduras do estado? O que é que vai fazer sobre funcionários de
certas empresas que recebem subsídios diários por aparecerem no trabalho (vulgo
subsídios de assiduidade)?… É permitido rir neste parte. Em quanto é que andou a
cortar nos subsídios para fundações de carácter mais do que duvidoso,
especialmente com a crise que atravessa o país? Quando é que páram de mamar
grandes empresas à conta de PPP’s que até ao mais distraído do cidadão não
passam despercebidas? Quando é que acaba com regalias insultosas para uma
cambada de deputados, eleitos pelo povo crédulo, que vão sentar os seus reais rabos
(quando lá aparecem) para vomitar demagogias em que já ninguém acredita?
Perdoem-me a chantagem emocional senhores ministros, assessores, secretários e
demais personagem eleitos ou boys desta vida, mas os pneus dos vossos BMW’s
davam para alimentar as crianças do nosso país (que ainda não é em África) que
chegam hoje em dia à escola sem um pedaço de pão de bucho. Por isso, se o tempo
é de crise, comecem a andar de opel corsa, porque eu que trabalho há 11 anos e
acho que crédito é coisa de ricos, ainda não passei dessa fasquia.
E para terminar, um “par” de considerações sobre o vosso anúncio de 6ª feira.
Estou na dúvida se o fizeram por real lata ou por um desconhecimento profundo do
país que governam.
Aumenta-me em mais de 60% a minha contribuição para a segurança social, não é?
No meu caso isso equivale a subsídio e meio e não “a um subsído”. Esse dinheiro
vai para onde que ninguém me explicou? Para a puta de uma reforma que eu nunca
vou receber? Ou para pagar o salário dos administradores da CGD?
Baixam a TSU das empresas. Clap, clap, clap… Uma vénia!
Vocês, que sentam o já acima mencionado real rabo nesses gabinetes, sabem o que
se passa no neste país? Mas acham que as empresas estão a crescer e desesperadas
por dinheiro para criar postos de trabalho? A sério? Vão-se foder.
As pequenas empresas vão poder respirar com essa medida. E não despedir mais
um ou dois.
As grandes, as dos milhões? Essas vão agarrar no relatório e contas pôr lá um
proveito inesperado e distribuir mais dividendos aos accionistas. Ou no vosso
mundo as empresas privadas são a Santa Casa da Misericórdia e vão já já a correr
criar postos de trabalho só porque o Estado considera a actual taxa de desemprego
um flagelo? Que o é.
A sério… Em que país vivem? Vão-se foder.
Mas querem o benefício da dúvida? Eu dou-vos:
1º Provem-me que os meus 7% vão para a minha reforma. Se quiserem até o guardo
eu no meu PPR.
2º Criem quotas para novos postos de trabalho que as empresas vão criar com esta
medida. E olhem, até vos dou esta ideia de graça: as empresas que não cumprirem
tem que devolver os mais de 5% que vai poupar. Vai ser uma belo negócio para o
Estado… Digo-vos eu que estou no mundo real de onde vocês parecem,
infelizmente, tão longe.
Termino dizendo que me sinto pela primeira vez profundamente triste. Por isso vos
digo que até a mim, resistente, realista, lutadora, compreensiva… Até a mim me
mataram a esperança.
Talvez me vá embora. Talvez pondere com imensa pena e uma enorme dor no
coração deixar para trás o país onde tanto gosto de viver, o trabalho que tanto gosto
de fazer, a família que amo, os amigos que me acompanham, onde pensava
brevemente ter filhos, mas olhem… Contas feitas, aqui neste t2 onde vivemos,
levaram-nos o dinheiro de um infantário.
Talvez vá. E levo comigo os meus impostos e uma pena imensa por quem tem que
cá ficar.
Por isso, do alto dos meus 32 anos digo: Vão-se foder"

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